pra não ficar na gaveta

sexta-feira, dezembro 16, 2011

 
a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva mingua os planos
da calça jeans com sandália de dedos
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas
como crianças tristes que sabem
o toró que se aproxima as unhas recém-cortadas
que planejaram se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia

quarta-feira, junho 08, 2011

 
um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

quarta-feira, agosto 11, 2010

 

porta-joias

nessa noite, digo, em quase todas
tenho um sonho horrível
como se acordasse
fosse até a pia do banheiro
lavasse o rosto
e ao enfrentar-me ali
de cabelos revoltos
os dentes cairiam um por um
dominós em série
tentaria em vão segurar as pequenas
peças com as mãos
malabaristas, desastradas
que não conseguiriam deter
a porcelana
sugada com força total pelo ralo
meus dentes pelo ralo, os brincos
de marfim que vovó
separou pra mim

segunda-feira, maio 31, 2010

 
tenho um medo terrível de cegar, ela me disse, e desligou o telefone se abraçando debaixo das cobertas. fazia frio demais para se levantar agora, lavar as mãos, esfregá-las com álcool e voltar para a cama. fica na dúvida se ao acordar será capaz de abrir os olhos e enxergar o relógio por saber secretamente que coçou os olhos com os dedos. pode jurar que não. ontem, depois de ontem, depois de ter passado a tarde com aquelas crianças na dúvida se a viam pouco ou nada, com uma roupa escolhida especialmente para a ocasião, percebeu que, afinal, ninguém poderia ver a tal roupa. até que um menino apontou: olha só a loura, e ela percebeu que, ao contrário do que pensava, talvez a vissem um pouco que fosse. o rapaz usa uma corrente dourada e tira o boné para sair mais bonito na foto. a menina bem novinha tem as unhas roxas metalizadas e quer ser atriz quando crescer. ela é quem mais vê, poderia estudar em uma escola normal, mas tem uma doença degenerativa, aos poucos vai enxergar cada vez menos, e todos sabem disso, saberá ela também? decide que não vai sentir pena, ninguém aqui está pedindo pena, amanhã ao acordar também não vai enxergar nada.

quinta-feira, abril 29, 2010

 
M. estava na sala sozinha, sem luz. acabou a energia de manhã, o pior é ficar sem ar condicionado, ela diz. procura na mesa uns papéis, checa o meu nome, pergunta se é esse mesmo, me entrega a autorização. vamos ter que levar o documento até outro departamento. M. caminha ao meu lado, subimos uma escada de mármore, passamos por um vão, no alto uma menina caminha bem rápido, não faz questão do corrimão para subir os degraus, sequer encosta na parede, sobe e sabe que estamos em sua frente, faz curvas, corre. quando me aproximo, vejo as duas pupilas azuis rondando, fora de órbita. fico levemente tonta. perto dela há uma folha que diz: risco cirúrgico. outra mais adiante repete os dizeres. é a sala do oftalmologista, M. diz, e pergunto o que aquilo quer dizer, o risco, no que ela responde longamente, sem chegar a uma explicação precisa. de repente sinto vontade de coçar os olhos, ergo as mãos mas me reprimo, já encostei nas paredes, na cadeira, no corrimão, desse jeito é possível que eu tenha que me acostumar a subir os degraus sem ajuda. chegamos enfim ao departamento, meus olhos coçando, digo à sra. C. que gostaria, por gentileza, de conversar com alguns... pacientes. nesse momento, sei bem que não escolhi a palavra precisa, mas de fato não saberia qual escolher, talvez cegos, deficientes, talvez tudo isso soasse pior. a sra. C. me responde brava, diz que ali não há pacientes, há alunos. você não vai poder conversar com os nossos alunos, não hoje.

domingo, março 28, 2010

 

estrondo

imperdível
na quarta-feira
o cep 20.000
começa às nove
custa cinco
o lado 7] será
carlito, gregorio
eu e chacal


quinta-feira, março 04, 2010

 

volta

esses dias de tédio
em que se tem tempo –
tempo só se arranja quando
não se tem
quando sobra desse jeito
a gente repete os assuntos
o ônibus chega rápido
e os trajetos ficam curtos
– de repente
readaptar-se à própria casa
como foi lá? bom
rever os gigantes, os mínimos
dedicar a eles igual dose
de carinho ou indiferença
usar as roupas que ficaram
meses dobradas no armário
com cheiro de sachê
nessas tardes sem compromisso
esticadas com rolo de macarrão
tudo é longo
nada dura

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