foi escolha sua saltar
muito antes do destino
só para atravessar uma
ponte
curioso isso de atravessar
pontes
e cruzar um lugar impossível
sobre o sena
sobrevoando mesmo
os bateaux mouches
a vista privilegiada
de uma tarde muito azul
apesar do vento: essas árvores
amarelas que pipocam
no outono
tenho te escrito com calma
cartas em um caderno azul
arranco da espiral e não posto
por preguiça ou nem morta
tenho medo da espera
durante dias ou semanas um animal horrível
(espécie de raposa) vai me perseguir
por dentro, ou serei eu mesma
(um rato?) a me roer
enquanto a resposta não chegar
perco muito tempo tentando
dar nomes aos bichos
que sobem a cortina do quarto
gal canta nesse trem noturno que sai de veneza para uma noite quente de verão. nós três rimos muito na cabine e nos assustamos quando o vagão pára em uma estação erma, sem gente nos bancos, sem despedidas, o olhar duro do fiscal que dorme sozinho toda noite, o fiscal em sua cabine, sem casa ou mulher, espécie de marinheiro que não embarca em navio algum, que não fica a sós com horizonte algum, mas muito pior, esse fiscal que não pode se perder, está bem firme nos trilhos, em sua rota veneza-budapeste, que se estende por treze horas sem tirar ou pôr, o fiscal que nos recomenda a trancar as três fechaduras da cabine, primeiro a de cima e em seguida a do meio, e nós achamos graça de tudo porque ninguém nos levou à estação ou nos espera na plataforma, não conhecemos absolutamente ninguém por essas bandas e por isso mesmo tudo é tão assustador e leve ao mesmo tempo, esse papel com frases em húngaro, algum comando incompreensível que não vamos seguir, as três com os olhos bem abertos fingindo para as outras que estão em sono profundo, quando na verdade as idéias dançam e trocam a ordem dos móveis na cabeça, se bem que provavelmente o único que dorme em todo o trem deve ser o fiscal, ou nem ele, duro que é, talvez prefira fantasiar com ondas gigantes, maremotos.
te ver no inverno
é como verter pela metade
meus pés afundados
na areia, às cinco a luz
é pouca: hoje é terça de tarde
e não me sinto de férias
nesse verão ao avesso
te dobro um barquinho
pra navegar no mar
laura ainda não estava
do lado de fora
para ouvir nossas conversas
com a barriga, os primos
amontoados em torno
da cama esperando
as semanas finais: laura
estava bem viva
antes mesmo de querer
ser um prédio (assim não teria
que ir à escola), antes mesmo
de perceber que atenas
estava em obras justo quando laura
foi lá visitar
saber que estava para chegar
era como se já estivesse lá