pra não ficar na gaveta

segunda-feira, maio 29, 2006

 

Procura-se

I.
Meu medo é perder
Você com tantos planos
Mirabolantes maquiavélicos
Cheios de réguas.

II.
É por isso que ando cheia
De pressa, meio afobada
Mãos inquietas, cabelos
Presos, pés encolhidos
Muitos dentes na boca.
Não vejo a hora de chegar
A hora.

III.
Quero que você me quebre
A cara de cara.
Ou muito alto, postura
Engraçada, jeito de falar
Nariz pontudo, braços
Finos, maxilar largo
Pés desproporcionais.
Eu preciso de um sinal
Imediato.

IV.
Imediatamente.
Fotografia em preto-e-branco
Colada nos postes
Por toda a cidade
Há recompensa, ligar para
Urgente, procure.

Desaparecido, favor aparecer.

sexta-feira, maio 26, 2006

 

Disfarce

cabelos esvoaçantes emolduram
o rosto
não quero fazer aniversário
gosto dos meus quinze
os óculos são grandes para que escondam
os olhos.

(maio de 2004)

quinta-feira, maio 11, 2006

 

E só

Tenho correspondentes em vários cantos da cidade que me informam onde você está e com quem e vestindo qual roupa. Eu mesma saio por aí pronta para te encontrar em qualquer esquina, ombros para dentro, procure. Dois olhos fisgados em quem vai, quatro milhões de células fisgadas em quem vem, sou toda sentidos, chapéu com laçarote.

Não umas palavras lançadas. Um discurso ensaiado em frente ao espelho. Papelzinho com tópicos, bem didático, dia de apresentação oral na escola: não vai se esquecer de se lembrar de não se esquecer de se lembrar! Eu não me esqueço de nada. Vou para frente da sala, escrevo no quadro negro e peço que façam silêncio, que não durmam, que parem de fazer perguntas, que prestem atenção no que eu digo, que sejam bonzinhos.

E aí, só de pensar em te ver no meio da rua, com tantos braços e pernas e dentes capazes de fazer estragos, destruir mundos, construir mundos, só de pensar, engasgo, sou invadida por uma alergia. A pele alerta uma pequena mancha, um vermelho que coça coça coça até que sangra e deságua num choro baixinho debaixo do chuveiro.

Um deslize de comer damascos à noitinha, sentada no banco da cozinha. Cheia de reflexões dramáticas, criando personagens e separando o mocinho do vilão, com a minúcia de quem escolhe frutas. Olhando pelo buraco da fechadura, tenho medo do susto de alguém abrir a porta bruscamente.

É que não consigo me livrar. Juntar a correspondência, os recados, as fotografias e as outras coisas que inventei numa grande fogueira, e queimar tudo com risada de bruxa, decidindo que a partir de agora nunca mais olho nos olhos, nunca mais penso com carinho, que a partir de agora sou rancor e só.

Mentira. Coloco aqueles sapatos, mesmo que esteja vestindo camisola e cara amassada, mesmo que esteja doente e com os cabelos embaraçados, mesmo assim eu ponho aqueles sapatos e o chapéu com laçarote só para andar pelo corredor. Para me ver pequeninha no espelho e aumentar conforme chego mais perto, cada vez maior, até virar um detalhe no rosto.

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