pra não ficar na gaveta

quinta-feira, março 04, 2010

 

volta

esses dias de tédio
em que se tem tempo –
tempo só se arranja quando
não se tem
quando sobra desse jeito
a gente repete os assuntos
o ônibus chega rápido
e os trajetos ficam curtos
– de repente
readaptar-se à própria casa
como foi lá? bom
rever os gigantes, os mínimos
dedicar a eles igual dose
de carinho ou indiferença
usar as roupas que ficaram
meses dobradas no armário
com cheiro de sachê
nessas tardes sem compromisso
esticadas com rolo de macarrão
tudo é longo
nada dura

Comentários:
de repente,
voltar ao cesto,
ainda fibra,
ainda taquara,
fruto maduro...

Beijos,

seja bem vinda.
 
Muito bonito!

Eduardo
 
tem dias, que eu ligo o computador ou abro os livros procurando um motivo pra sorrir, um pra chorar... um motivo pra sentir qualquer coisa. Ao passo de Arnaldo Antunes "socorro já não sinto nada...".
Não sei o nome desta melancolia que tenho ao abrir seu blog. É como a felicidade de receber notícias de alguém que há muitos anos havia sumido, mas ao mesmo tempo aquilo serve para te fazer descobrir que há uma saudade imortal os separando.
É assim... como se eu te conhecesse à cada post, talvez conheça dentro de mim, é estranho isto... mas me sinto tão em casa aqui que junto com isto tudo, tenho saudades de uma Alice que mora em mim.

Vou parar que tá ficando grande demais. Mas é estranho...
 
Só acrescentando, modificando uma frase de Cazuza

"A Alice não existe, é um sonho que a gente teve"

talvez seja por isto que é algo tão fora e tão dentro de mim...

haha
 
ai alice, que lindo... estou há 3 semanas estranhando meus dias, me sentindo muito esquisito às vezes... sem saber muito o que tá rolando, na minha cabeça... ler isso me confortou, me reanimou. que palavras gostosas..
beijo grande
 
sant'annarere, muito bonito esse.
 
Perfeito o oxímoro em
"tudo é longo
nada dura"
para representar o tédio.
 
Gostei muito, Li.
 
CACETE, Alice!

\o/
 
ando tão sem tempo, alice... me empresta um pouco do seu! haha
bela 'volta', alice!! bem vinda novamente! enguli o seu livro e ainda tô lambendo os dedos...

bjão
 
longitude que se perde
da vista

nos engana
chega a parecer
que é pra sempre
--------------------------------

Adorei! =)

=*
 
Olá!
Muito bom, como sempre.

Bj!
 
Você compreende como os dias são.
 
interessante.
 
Leio esse blog esporadicamente há algum tempo. Eu improviso com “simpatia, desprezo, “é bonitinho”, “eis aqui a delicadeza”, tolo, Baudelaire, poesia Orkut, “eu poderia amá-la, se eu não quisesse destruí-la”, “se eu não literalmente quisesse comê-la viva, eu poderia amá-la”, “talvez eu já a ame, mas eu não quero assumir”, bobinho, algo acerca do feminino, “diz logo que você gosta””... em relação a ele há algum tempo. Acabei de ler esse poema e resolvi comentar. Comentar = tentar, de certo modo, esquematizar essa improvisação aí. Não sei se você espera ou vai gostar desse tipo de retorno. Não é o que é feito pelas demais pessoas que comentam aí. O comentário será “longo” e, de certo modo, deverá também se referir aos demais poemas. Eu espero despertar alguma simpatia, criar algum diálogo diferente do que é criado aqui. Vou tomar esse poema aí como micro-cosmo dos demais. Espero (no sentido de “por favor, por favor, responda, por favor, por favor, me dê atenção...”) conseguir algum retorno de você.

O que você faz é “conceitualmente sumarizável” assim: a pretensão é sintetizar poeticamente opostos (“eterno” e “instante”, “novo” e “mesmo”, “lógico” e “i-lógico”, “sim” e “não”, “certo” e “errado”).

A dificuldade é justificar (imagino também que essa palavra te dê certa raiva, mas eu peço, desde já, quase perdão por ter usado essa palavra) o porquê você faz isso.
I.e.,

Por vezes, e eu acho (por favor, não estou dizendo que eu sei, não me coloque na posição do metafísico totalizador) isso se justifica assim: (a) é um sujeito quem se confessa. Isso permite, então, que se justifique essas oposições do seguinte modo: a forma poética precisa ser entre o lógico e ilógico (e todas as demais oposições) porque o singular está no próprio sujeito; ele resiste a ser pensado objetivamente, tal como as ciências duras pensam a natureza. O sujeito é em si anti-natureza. Trata-se aqui de poeticamente expor isso;

Por vezes, no entanto, (b) parece que a sua pretensão é tornar o instante objetivo e, sendo assim, falar para além do sujeito: i.e., para além de qualquer perspectiva ou a perspectiva que são todas as perspectivas juntas acerca do instante. O “tudo é longo / nada dura” evidencia isso de modo quase didático. Se você falasse exclusivamente a partir daí, daria para concluir o seguinte: a forma poética precisa ser entre o lógico e ilógico porque o singular não está no sujeito, mas, por assim dizer, lá fora: é o sujeito quem traz a lógica, quando o real, na verdade, está para além de qualquer apreensão conceitual. Ou seja, justamente o contrário da primeira justificativa.

O LEITOR DE MÁ VONTADE 1 destrói a justificativa (a) para o seu projeto assim: ah, então, isso é só poesia confessional. Ela basicamente é um desenvolvimento pós-moderno do romantismo: lá onde eles querem confessar a si mesmos e assim atingir o próprio homem, ela só faz literatura pessoal, sem pretensão de conhecimento do homem. Trata-se, em suma, de uma espécie de poesia Orkut: ela constrói um eu-pessoal a partir de várias referências e espera que os leitores a acrescem como amiga;

O LEITOR DE MÁ VONTADE 2 destrói a justificativa (b) para o seu projeto assim: ah, então, ela basicamente desenvolve o que Mallarmé e os concretos faziam. Mas, nisso, ela não tem nada de novo. Ela é, por assim dizer, uma poeta concreta light: só um pouquinho ilógico, só um pouquinho maquinal, só um pouquinho tudo...

Por conseguinte, eu sou o LEITOR DE BOA VONTADE 3. A sua poesia permite duas justificativas opostas para porque você quer sintetizar poeticamente os opostos. Isso implica que mesmo no que justifica os opostos, você traz justificativas opostas. Então, o LEITOR DE MÁ VONTADE 1 problematiza o 2 e vice e versa: o singular é instaurado pelo sujeito, o real instaura o singular, o sujeito mesmifica o singular do real, o real mesmifica o singular do sujeito... Não há uma solução para isso. Isso é exposto. É por conta disso que as improvisações que eu tive são ambíguas. Era para ser assim mesmo. Esse é o charme.
 
(continuando)

Não sei se você se vê nisso que eu li.

Mas, enfim, o problema, para mim, é ético.

A sua pretensão (me parece) é ficar entre as oposições, mostrando o que há de uma na outra. Isso, entretanto, não é concretizável pelo tipo de diálogo que é estabelecido aqui nos comentários do blog e no tipo de coisa que sai sobre você na “mídia”. A culpa é e não é sua. Como há uma certa repetição de estruturas nos teus poemas, o seu público só parece estar vendo um lado da moeda: o positivo, lindo, legal, tudo em relação a você parece legal e você parece querer que isso fique assim. Se você quiser ficar entre oposições (como eu acho que você quer), esse público precisa ser mais violentado: ele precisa ter vontade de te destruir também. Não pode ser um “já aceitamos essas oposições, logo, ela é linda”. Tem que ser (eu acho) um “ela coloca oposições que problematizam as oposições que já foram apropriadas pelo meu ego, logo, ela é linda, ela é feita”. Parece que todo mundo aqui te acha linda. Eu te acho meio feia, meio linda. Não sei muito bem. Eu meio que tenho vontade de te amar e de te destruir. E acho que te ler assim é bem mais interessante. Você precisa escrever poemas que esses leitores aí desprezem. Caso contrário, o teu projeto literário não causa o “entre oposições” pretendido, mas apenas a exposição de uma certo tipo de valores, muito específico, muito Orkut, muito um lado da moeda... A partir daí, fica fácil (sobretudo, para o LEITOR DE MÁ VONTADE 1) te destruir. Ou não.

Enfim, o que você acha disso?
 
que lindo o seu poema, gostei bastante da sua descrição da efemeridade do tempo...vou voltar mais vezes aqui. Parabéns pelo blog.
 
Tempo que sobra rapidinho vai embora.

Adorei isso aqui!

beijomeupravocê
 
Alice,
com esse nome e esse blog, só consigo pensar nisso:
http://www.youtube.com/watch?v=C5wHMgTPF-s

esse lugar é sua gaveta, onde todos nós podemos entrar, bagunçar, arrumar, enfim, se deliciar com seus belos poemas.

fiquei horas aqui hoje, me perdendo e me achando no meio de lindas, lindas palavras!

parabéns, vou voltar sempre!
 
Quem sabe o que é o tédio é como é possível descrevê-lo? O tédio é engraçado, acho tão prático, mas tão difícil de existir.
Compreendo cada verso seu, e você vê bem o que é essa vida, que parece sem graça, que cada coisa que aparece é muito clara feito uma salvação, libertação compulsória e não é. O que dizer de pesquisar as roupas velhas.
Afinal que o tédio existe é algum tipo de alegria disfarçada, pois só assim se volta a ver as coisas que não mais se via, volta-se a sentir tudo que não mais se sentia.
Tirar do tédio o que for bom, que isso é possível você comprova.
Um poema, uma beleza, tão cheio de significado, que vai além dessa superfície clara de caminho fácil. É o tédio, e o caminho é longo, e passa tão rápido.
 
Descobri sua poesia na antologia "Enter", também gostei muito da poesia que encontrei aqui, seus poemas são muito originais, parabéns!

Um abraço,
G.
 
Lindo :)
me fez lembrar sentimentos cotidianos sobre os quais raramente conseguimos separar pra refletir.
 
nada dura como o tempo, alice.
 
Cara... queria receber comentários bizarros, em alguma coisa que compusesse, tipo esse aí de cima (compêndio crítico em dois volumes)...
 
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