pra não ficar na gaveta

terça-feira, outubro 09, 2007

 

ritornelo

Nem tudo se mede com o ponteiro. Não é às duas que devo estar na sala da empresa, mas nessa luz de cima levemente inclinada. É a sombra exata do fim da passarela: a parede e o corrimão todos os dias para o lado direito.

Aqui do escritório há uma enorme janela ao lado da minha mesa. É um prédio alto, papo de quarenta andares, mas de onde eu assisto não há grande paisagem. É o estacionamento do shopping, a fila de carros estática que por vezes se modifica, sai um, entra outro, sem nenhum sobressalto. Daqui não há um panorama da cidade, como lá em cima, onde se vê a curva da praia, contornos de morros, algumas construções, gaivotas mergulhando numa Princesa Isabel engarrafada, a carcaça do túnel, o trajeto do sol. O panorama do primeiro andar são dois coqueiros plantados num jardim artificial e, já disse, os automóveis.

Nem por isso deixo de me distrair. No arranha-céu, me localizo justamente no nível do chão. Quando venta um pouco, assisto às folhas dos coqueiros se sacudirem, e a alguns passarinhos (da última vez, era um bem-te-vi), desamparados. Mas o atrativo, confesso, não está bem nisso. Agora, por exemplo, cinco horas, é o momento crucial do dia. Venta uma brisa que sopra de leve, diferente do ar condicionado gélido daqui, que me veste com casaco de gola. É a luz que me retém, neste minuto exato em que o céu não brilha, mas desalinha. O dia turquesa de outubro definha num azul frio, quase branco, que curiosamente não se parece com o das primeiras horas do dia, quando o sol sobrevoa inclinado. A luz da manhã é espécie de promessa, e já ofusca. A do fim do dia, não: cinco da tarde são horas curvadas, desbotadas.

A noite chega com os postes do estacionamento acesos, em lâmpadas redondas. Aqui da mesa observo tudo com olhos sonolentos: o computador já não me traz nada de novo, terminei as contas faz tempo, e agora aguardo o momento do breu total, que espelha aqui dentro, o escritório. Seis e meia. Agora, o que vejo do lado de fora é o meu reflexo, meu rosto confundido com o farol de um carro que sai da vaga, esgotado de acompanhar a lentidão das horas. Sinto que envelheci em um dia, e é aqui que me ergo da cadeira e volto para casa. Amanhã se repete.

Comentários:
"o ponteiro é o porteiro do tempo"
 
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