pra não ficar na gaveta

quinta-feira, julho 13, 2006

 

Carpete marrom

Tomo chá de gengibre e limão com uma colher de mel. Mordisco uns biscoitos amolecidos pelo tempo e lambo as pontas dos dedos, sugando os restos de açúcar. Meu bem, já não sei o que dizer. Abri o envelope e devorei a sua letrinha miúda contando as imundices da adolescência e reprovei em tom de mãe – isso, não. Você me conta as velhas novidades com muita energia, e quando tirei os olhos do papel me espantei em não estar aí, juntinho. Os meus pés estão cruzados do outro lado da cama, teimam em tremer, esses dois. E quando a gente escutava música, as risadas saiam agudas e os olhos cintilavam enormes feito jabuticaba. Já aqui é pacato toda a vida, nove da noite não se ouve o telefone tocar e a lua enxerga lá de cima. Antes de entrar no avião, ouvi muito conselho de que céu e mar diminuem saudades, já que existem em qualquer parte do mundo. Mas eu não concordo: céu é céu, mar é mar, e saudade é tudo, até coisa que não se vê. Só que eu sou forte que nem onça e fechei os olhos com muita vontade para que ninguém me visse chorar. Já sou gente grande pra me derramar em tico-tico na frente dos outros; agora preciso ter segredos, não é assim que se faz quando cresce? Pois tem dias em que fico bastante quieta, observando com sentidos de bicho, e a cabeça chega a machucar de tanta idéia que cutuca. Sabe, essa cama está uma bagunça, com os dias espalhados e gostos diversos, porque o calendário desse povo é muito doido – você já imaginou que eu estou na noite da sua manhã?


(13 de novembro de 2004)

Comentários:
Minha manhã é minha noite, ou já se esqueceu? Esse seu cinismo é duro de aturar. Minhas imundices! Como se meu lamaçal de adolescência fosse mais fundo e extenso que o seu. Às vezes você diz cada dizer esquisito. Olha, a coisa é bem mais simples: divirto-me. Não se fica parado num momento para sempre. É estupidez da memória que insiste em eternizar as coisas. Sim, chapinho e me chafurdo na lama, se não estou morto. Sei que faz o mesmo. Aprovo. Encontrei um retrato nosso outro dia que quase me fez sentir saudade. Mas então é pensar: saudade de quê? Ora, se nunca tivemos nada, salvo algumas saliências de final de verão! Nem me lembro direito. Deve ter sido o calor. De resto, somos dois estranhos que se conhecem em seus silêncios. Mais nada. Além do mais, saudade é pra quem sabe bem chorar. Em meu choro eu me desmantelo em contrações inimagináveis e você evoca três rugas descomunais na testa. Não, não somos bons pra ter saudade. Se pudesse sentir saudade de algo, seria dos tempos em que você deixava todos os quartos pelo avesso. Vejo agora que não perdeu o jeito. Quando entrava no quarto podia facilmente descobrir suas andanças de fim de semana, os cheiros dos lugares visitados, impregnados em cada ingresso dobrado e redobrado por suas mãos inquietas, cada papel de bala, cada panfleto que recebia. Seu quarto era o meu detetive de marido desconfiado. Sabe-se lá, aquilo me dava uma sensação esquisita, mas boa. Já deveria ter posto ponto final nisso aqui, mas só me veio vírgula. Continue escrevendo, talvez sirva de algum alento para começar o dia que custa a engrenar.

(15 de Novembro de 2004)
 
um dos mais lindos, e talvez um dos que o que mais vão ser lidos Alice!
 
que mais vão ser lidos porque sempre entro aqui e releio teus textos. esse é um que sempre que eu passo dou uma lida!

e eu repeti os "ques" no comentário, realmente, ficou confuuuso, até eu me confundi! hehehe

já tô de volta!
vamos sair pra contar das viagens?
 
lindo isso, 'viu alice?
docemente confuso, como cavar uma superfície arenosa com uma colher rombuda.
 
Ei, Alice, quero mais. Esse é de ler de colherinha.
 
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